Salvaterra é Fixe - Editor: José Peixe

Archive for the ‘Poesia’ Category

Poesia

21 de Dezembro de 2009

Um Poema de Sophia

Porque  

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
 
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
 
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
 
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não. 

  
“No Tempo  Dividido e  Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79
Sophia de Mello Breyner Andresen

Poesia

22 de Maio de 2009

O caminho da vida

CAMINHO
“Encontraste-me um dia no caminho
em procura de quê, nem eu o sei.
-Bom dia, companheiro, te saudei,
QUE A JORNADA É MAIOR INDO SOZINHO,
é longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei…
Na venda em que pousaste, onde pousei,
bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha de um calvário,
e queima como a areia!…Foi no entanto
que choramos a dor de cada um…
E o vinho em que choraste era comum:
tivemos de beber do mesmo pranto”.
Camilo Pessanha
Caminhos, estradas, trilhos, ....
Caminhos, estradas, trilhos, ….

Poesia

25 de Abril de 2009

O futuro é tempo resistente

 

O FUTURO
   

 

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai. 
José Carlos Ary dos Santos

 

Poesia

8 de Março de 2009

Dia Internacional da Mulher

Um Grupo de Mulheres Fantásticas - Foto J.P
Coro1 Baixa - Coro1 Baixa

Dia internacional da Mulher

Em mil oitocentos e cinquenta e sete
A mulher ali padeceu
Deixando um saldo terrível
De tudo que ali se deu

No início do século xx
Ela tinha um papel inferior
Não participava da política
Era algo sem valor
Sujeita à tutela do pai,
Irmão, marido, que horror!

Hoje a mulher vem lutando
Contra toda opressão
Conseguindo seu espaço
Com a vida marcada pelo não
Lutando sempre por justiça
Contra a discriminação

Já no terceiro milênio
Ainda se ve a diferença
De toda a descriminação
E do machismo a essência
Em que a mulher é oprimida
Impondo o homem sua crença

A mulher quer conquistar
O direito de identidade
Fazendo com que se entenda
A nossa sensibilidade
Pra desfrutar cada momento
Em clima de igualdade

E para finalizar
O que a mulher hoje quer
É o direto de ser respeitada
E viver em clima de fé
Em condições de igualdade
Na relação homem/mulher.

de Maria Geneci Dias Costa

Pintura, Poesia

25 de Fevereiro de 2009

Poesia para descontrair

Um Poema de Oswaldo Montenegro
Amor - Amor
METADE DE MIM
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que eu sei
Que a morte de tudo que acredito
não me tape os ouvidos e a boca;
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda ainda que triste
Que o homem que eu amo
seja para sempre amado, mesmo que distante
porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor;
apenas respeitadas como a única
coisa que resta a um homem
num dado de sentimento
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.

que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma
e na paz que eu mereço
que essa atenção que me corroe por dentro
seja um dia reconhecida,
porque metade de mim é o que penso
e a outra metade é um vulcão

que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesma
se torne ao menos suportável;
que o espelho reflita em meu rosto
doce sorriso que me lembra
do retrato da infância.
porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei

que não seja preciso mais do que uma
simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais;
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.

que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção

e que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é AMOR
E A OUTRA METADE TAMBÉM!
Oswaldo Montenegro

Poesia

25 de Dezembro de 2008

Poesia

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado…
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão-Ferreira,
Obra Poética 1948-1988
Lisboa, Editorial Presença, 1988

Poesia

9 de Dezembro de 2008

Brisas e reflexos de Outono

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Quando uma imagem dispensa as palavras

OUTONAL
Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…

Florbela Espanca

Poesia

25 de Novembro de 2008

Outro Soneto de Bocage

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SONETO DE TODOS OS CORNOS

Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Corníssimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes cornos têm reinado.

Siqueu foi corno, e corno de um soldado:
Marco Antonio por corno perdeu a c’roa;
Anfitrião com toda a sua proa
Na Fábula não passa por honrado;

Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga letra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;

Tudo no mundo é sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Poesia

24 de Novembro de 2008

Um Soneto de Bocage

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SONETO DO PAU DECIFRADO

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;
Brando às vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um U;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Poesia

16 de Novembro de 2008

Cantar a Liberdade

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TROVA DO VENTO QUE PASSA
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre


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